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Sobre a nova direita e o velho fascismo

Do Blog  do Gustavo Moreira

facismo
“O fascismo apresentou-se como o antipartido, abriu as portas para todos os candidatos; e, prometendo a impunidade, permitiu que uma multidão informe cobrisse com um verniz de idealismo político vago e nebuloso o transbordamento selvagem das paixões, dos ódios, dos desejos.  O fascismo tornou-se assim uma expressão de nossos costumes, identificando-se com a psicologia bárbara e antissocial de alguns estratos do povo italiano, ainda não modificados por uma nova tradição, pela escola, pela convivência em um Estado bem organizado e bem administrado.  Para compreender todo o significado destas afirmações, basta recordar que a Itália tinha o primado em homicídios e linchamentos; que a Itália é o país onde as mães educam os filhos com golpes de tamanco na cabeça, o país onde as jovens gerações são menos respeitadas e protegidas; que, em algumas regiões italianas, parecia natural, até poucos anos atrás, por uma focinheira nos vindimeiros para que não comessem as uvas; que em algumas regiões, os proprietários trancavam a chave os seus trabalhadores nos estábulos, quando estes voltavam do trabalho, a fim de impedi-los de reunir-se e de frequentar as escolas noturnas”.
       O fragmento de texto que apresento aos leitores foi escrito por Antonio Gramsci (1891-1937) em 26 de abril de 1921, ou seja, cerca de um ano antes da tomada do poder pelos fascistas. Saltam aos olhos mais desatentos as semelhanças entre um país cujas relações sociais eram consideradas bárbaras, brutais, na Europa de quase um século atrás, e o Brasil contemporâneo.  Não temos obrigatoriamente o “primado dos homicídios” no ranking mundial, mas nossos índices apavoram; às mortes resultantes das disputas territoriais entre facções do crime organizado, entre estas e as polícias, aos latrocínios, somam-se milhares de delitos passionais sequer vistos como transgressões por seus autores, que por vezes entendem como justiça o “exercício arbitrário das próprias razões”. Os castigos físicos, longe de ficarem limitados a uma esfera doméstica da qual por vezes ocorre a migração  para os jornais televisivos, quando crianças perecem em consequência das pancadas desfechadas por pais, mães, avós ou padrastos, são corriqueiramente empregados por agentes do próprio Estado como instrumento de submissão das classes julgadas perigosas.  Não nos surpreendem, tampouco, as notícias sobre o trabalho em condições análogas à escravidão, com a retenção de agricultores em alojamentos insalubres de fazendas nem sempre distantes dos grandes centros, sob a mira de seguranças armados.  O ensino de adultos, pouco valorizado, não atinge o extremo de motivar episódios de cárcere privado, mas a autorização para frequentá-lo é considerada uma grande concessão por certos empregadores, que veem com maus olhos a possibilidade de dispensar parte da mão de obra enquanto ainda se percebe um pouco de luz solar.
            Os intérpretes destes fenômenos sempre divergiram, segundo suas concepções doutrinárias e filiações partidárias, acerca das origens das mazelas e dos remédios que devem saná-las.  Porém, mesmo os políticos de direita de tipo tradicional, não obstante suas práticas (ou as de seus patronos) no mundo da produção, habitualmente condenam no plano retórico as variadas formas de violência que se exercem “de cima para baixo” em nossa sociedade.  É certo que podemos apanhá-los, no calor de certas discussões, em flagrante contradição, como nos casos em que a tentativa, ou mera sugestão, de desapropriar terras onde foi comprovado o cativeiro de trabalhadores ou o cultivo de maconha se faz acompanhar por furiosa resistência parlamentar.  Contudo, salvo raras exceções, em regra produzidas nos momentos de confrontação ideológica mais exacerbada, havia um certo consenso, até poucos anos atrás, quanto ao espantoso grau de injustiça vigente na sociedade brasileira e à necessidade de  modificar este panorama.  Isto se refletiu, por exemplo, na ampliação de diversos direitos sociais e trabalhistas, com numerosos votos de constituintes conservadores, na Carta de 1988.
        Percebemos na contemporaneidade a consolidação de um novo tipo de direita cujos ídolos, conforme o grau de instrução e as preocupações imediatas de seus componentes, podem ser Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Luiz Carlos Prates, Rachel Scheherazade, Leandro Narloch, o falecido Luiz Carlos Alborghetti ou um pequeno punhado de genéricos mais ou menos anônimos, do gênero celebridades de Internet.  Salvo o próprio Bolsonaro, ainda não contam com uma representação formal no Congresso ou nos governos estaduais e municipais, mas é previsível que em futuro próximo construam o seu Front National*, e as “pérolas do reacionarismo” que por vezes aqui exibo como caricaturas ou celebrações particulares da imbecilidade humana se transformarão em elemento corriqueiro da vida política brasileira.
       Eles não se limitam, como muitos de seus antecessores, a defender a manutenção do capitalismo em sua plenitude e a presumida necessidade da hegemonia político-militar do Estados Unidos no cenário global.  Desenvolvem uma campanha vigorosa contra qualquer alteração do status quo no sentido do avanço das forças populares e da supressão ou amenização das barreiras de classe, gênero e etnia.  Costumeiramente são demagógicos e mergulham na histeria: a regulamentação rotineira de um artigo da legislação trabalhista, ou uma explosão de fúria de três ou quatro militantes durante uma passeata, de súbito são anunciadas em milhares de páginas virtuais como indícios inegáveis da vinda próxima do Leviatã comunista. 
        Os mentores desta nova direita estão cientes, é claro, de que as correlações de força existentes no mundo real passam por linhas bastante diversas daquilo que apregoam: as possibilidades concretas de que as forças de esquerda venham a derrubar o capitalismo, na maioria esmagadora dos países, são quase nulas; apesar dos progressos alcançados pelos movimentos sociais nas últimas décadas, as chances de exercício da cidadania plena e as oportunidades econômicas oferecidas a mulheres, pobres, negros, gays e “dissidentes” da sociedade capitalista permanecem notavelmente inferiores às que se colocam para o “burguês branco heterossexual conservador”; até mesmo a recente ascensão ao poder de partidos formalmente esquerdistas em alguns países da América Latina se faz acompanhar por um elevado grau de compromisso com segmentos do empresariado e políticos de tipo oligárquico “antigo”.  
        A apreensão do mundo real, entretanto, pouco importa para as lideranças da nova direita.  Basta que suas distorções do noticiário da grande mídia (comicamente denunciada como esquerdista ou liberal esquerdizante), suas patéticas teorias da conspiração, sirvam para continuar a arregimentar seguidores aterrorizados com a iminência de uma nova ordem dominada por comunistas, terroristas muçulmanos e minorias organizadas que supostamente matarão cem, trezentos ou quinhentos milhões de terráqueos por puro instinto de perversidade. 
        Talvez seja irrelevante debatermos se cabe à nova direita, cujo reduto mais confortável, sem dúvida, ainda é a Internet, o rótulo de fascista.  Inclusive creio que, caso recorramos às definições de fascismo dos melhores especialistas, o diagnóstico será negativo.  Entretanto, seu parentesco com os mussolinianos da década de 1920 torna-se patente na intenção declarada (e permeada pela nostalgia das eras alheias ao sufrágio universal) de salvar uma ordem idealizada como benéfica, apesar das suas anomalias evidentes, da sua irracionalidade gritante.  Seu programa informal, que incentiva ou no mínimo admite as intervenções militares “preventivas” ou punitivas  contra os governos rebeldes à hegemonia ocidental, a prisão arbitrária e a tortura dos indivíduos tidos como social ou politicamente ameaçadores pelos setores dominantes, a conversão ideológica das desigualdades historicamente construídas em elementos “naturais” intrínsecos às sociedades e o exercício da violência verbal e física contra seus contestadores, poderia ser subscrito com tranquilidade pelo falecido Duce.
          Mussolini se apoderou do governo italiano em 1922 chefiando um partido-movimento que dispunha de menos de um décimo dos integrantes do Parlamento.  Não devemos, portanto, subestimar o poder de fogo da nova direita, apesar de sua fachada indiscutivelmente ridícula.  Precisamos multiplicar os espaços de denúncia das suas falácias e mobilizar o maior número possível de pessoas contra os seus propósitos.  
           
         
*Alusão ao partido direitista francês dirigido durante muitos anos por Jean-Marie Le Pen.         
                                   
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